Reflexão & Opinião

Nossa (in)sustentável forma de viver: Lições sobre Autonomia

Por João Oliveira • Leitura de 5 min • Dezembro 2025

Em maio de 2024, durante o maior desastre climático da região sul do Brasil, comecei a escrever para tentar processar o que vivenciávamos. Aquele evento não apenas paralisou o Estado, mas suspendeu nossa sensação de normalidade. Itens básicos de primeira necessidade, como água potável, comida e energia elétrica (que raramente questionamos se estarão disponíveis ao acordar), simplesmente desapareceram.

Ali surgiu uma pergunta inevitável: nossa forma moderna de viver é realmente resiliente? Ela nos oferece alternativas de sobrevivência, ainda que com menos conforto, quando o sistema central falha? A dura realidade que enfrentamos sugere que não.

A Dimensão da Tragédia

Para contextualizar a gravidade do ocorrido, chuvas intensas iniciadas no final de abril resultaram em enchentes devastadoras que afetaram mais de 385 municípios. Bairros inteiros ficaram submersos e a infraestrutura logística colapsou.

O Impacto em Números (Defesa Civil/RS)

183 Vidas Perdidas
27 Desaparecidos
8,7 mil Feridos
91,5 mil Desabrigados
644 mil Desalojados
3,1 mi Pessoas Afetadas

A infraestrutura sofreu danos severos. Pontes e estradas foram destruídas, o que interrompeu o abastecimento de bens essenciais. Em Porto Alegre, o histórico Mercado Público registrou inundações superiores às de 1941. Além disso, a agricultura foi fortemente impactada, prejudicando o fornecimento de alimentos.

Entre o Caos e a Solidariedade

Quando a tecnologia falhou, observamos dois fenômenos simultâneos. De um lado, o caos da escassez: a corrida desenfreada por água e comida esgotou estoques em horas. Dias depois, o combustível foi racionado. O corte de energia, internet e gás, somado à saturação do sistema de saúde e à insegurança pública, agravou o cenário de vulnerabilidade.

Do outro lado, emergiu o que sustenta a humanidade quando as estruturas formais ruem: a solidariedade. Milhares de voluntários e barcos de civis realizaram resgates onde o Estado não conseguia chegar. Essa mobilização comunitária salvou milhares de vidas, demonstrando coragem e empatia diante da adversidade.

A Busca pela Autonomia

Essa experiência me convidou a refletir profundamente sobre nossos hábitos. Se um desastre dessa magnitude ocorresse em escala nacional, gerando conflitos por recursos, ou se perdêssemos apenas a internet globalmente, como trabalharíamos ou conseguiríamos alimento? São atos cotidianos que percebemos, na prática, serem extremamente frágeis.

Talvez a verdadeira evolução não esteja apenas no conforto tecnológico, mas em garantir um nível mínimo de autonomia. Diante dessa fragilidade, podemos considerar caminhos para reduzir nossa dependência crítica:

  • Escolher moradias mais resilientes (casas ao invés de estruturas verticais dependentes de elevadores e bombas d'água).
  • Investir em fontes próprias de água (poços artesianos ou cisternas).
  • Adotar energia solar (sistemas off-grid ou híbridos).
  • Praticar a agricultura de subsistência e fortalecer produtores locais.
  • Priorizar a conexão real com pessoas, não apenas com máquinas.

Buscar uma vida mais simples, resgatando práticas dos nossos avós, não é um retrocesso. É uma estratégia de inteligência e sobrevivência. Não se trata de negar os benefícios da modernidade, mas de construir um estilo de vida onde sejamos menos vulneráveis a colapsos sistêmicos.


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