Tecnologia & Negócio

Citizen Developer: A Fluência Digital na sociedade 5.0

Por João Oliveira • Leitura de 7 min • Fevereiro 2026

Há algum tempo, a tecnologia era vista como um campo exclusivo de especialistas. Para a maioria de nós, bastava ser "alfabetizado" no digital: saber operar sistemas, responder e-mails e navegar em planilhas. Hoje, percebemos que existe um convite para ir além. O conceito de Citizen Developer trata dessa transição necessária: da capacidade de apenas usar para a fluência de articular soluções.

No ambiente profissional, o Citizen Developer é o funcionário sem formação técnica em TI que, movido pela necessidade de otimizar processos, cria aplicativos, automações e soluções de negócios utilizando plataformas low-code ou no-code. Na Sociedade 5.0, este protagonismo ganha uma nova dimensão: a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade para se tornar o meio pelo qual as pessoas resolvem problemas complexos, focando na sustentabilidade e no bem-estar humano. É a democratização do poder de criação tecnológica a serviço da sociedade.

A Origem do Termo e a Evolução Histórica

Embora o desejo de criar soluções sem código venha de ferramentas clássicas como o Microsoft Access e as macros de Excel nos anos 90, o termo Citizen Developer foi formalmente cunhado e popularizado pelo Gartner por volta de 2009.

Naquela época, analistas do Gartner identificaram que o descompasso entre a demanda por software e a oferta de programadores qualificados se tornaria um gargalo insustentável. A previsão era de que um "exército silencioso" de profissionais de negócio altamente capacitados logicamente poderia suprir essa lacuna se as ferramentas fossem simplificadas. O que antes era chamado de Shadow IT (tecnologia feita à margem da governança) evoluiu para uma disciplina estratégica apoiada hoje por instituições como o PMI (Project Management Institute).

A Fluência como Nova Linguagem

Ser um Citizen Developer não significa, necessariamente, tornar-se um programador. Na sua essência, trata-se de fluência digital. Assim como a fluência em um idioma nos permite expressar nuances e sentimentos, a fluência digital nos permite traduzir o conhecimento que temos de um problema em uma solução prática. É a capacidade de entender a lógica por trás das ferramentas para que elas trabalhem a nosso favor, e não o contrário.

"A essência do Citizen Developer reside na capacidade de raciocínio lógico. Quando democratizamos essa habilidade, reconhecemos que a melhor pessoa para desenhar uma solução é aquela que vive o desafio diariamente."

Como se tornar um Citizen Developer?

A transição para este novo protagonismo não acontece do dia para a noite, mas sim através de uma mudança de postura e aprendizado contínuo. Aqui estão os pilares para sua preparação:

1. Desenvolva o Pensamento Computacional: O primeiro passo não é abrir uma ferramenta, mas aprender a estruturar o pensamento. Isso envolve decompor problemas complexos em partes menores, identificar padrões lógicos e entender o conceito de fluxo (Entrada -> Processamento -> Saída).

2. Compreenda o Fluxo de Dados: Entenda como a informação nasce, onde ela é armazenada e como ela pode ser transformada. Saber o básico sobre bancos de dados relacionais e variáveis facilitará imensamente o uso de qualquer plataforma.

3. Explore as Plataformas Low-Code/No-Code: Comece a experimentar ferramentas que já estão no seu ecossistema, como o Microsoft Power Platform (Power Automate e Power Apps) ou Google AppSheet. O objetivo é ganhar intimidade com a interface de "arrastar e soltar" para materializar sua lógica.

4. Estude Governança e Segurança: Ser um desenvolvedor cidadão exige responsabilidade. É fundamental entender conceitos básicos de proteção de dados e segurança da informação para garantir que suas soluções sejam seguras e escaláveis para a empresa.

Protagonismo e Autonomia

Muitas vezes, sentimos o desejo de melhorar um processo, mas esbarramos na falta de meios. O Citizen Developer é o profissional que busca compreender as regras do meio digital para ter mais autonomia. Quando um especialista em RH, Finanças ou Operações ganha essa fluência, ele valoriza sua própria expertise através de um novo protagonismo.

Este movimento não isola a TI; pelo contrário, cria uma parceria. Enquanto os especialistas em tecnologia focam em infraestruturas complexas e segurança, o Citizen Developer resolve os gargalos de agilidade do dia a dia. É um ato de gestão humanizada permitir que cada profissional tenha a voz e os meios para facilitar o seu próprio trabalho.

Conclusão: Um Caminho de Colaboração

A fluência digital não acontece no vácuo. Ela floresce em ambientes que oferecem segurança e suporte. O Citizen Development é, acima de tudo, um movimento de colaboração entre a técnica profunda e a necessidade prática. É a celebração da nossa capacidade de usar o que o mundo digital oferece para construir um ambiente de trabalho mais integrado e com propósito.


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Literatura Recomendada

  • Citizen Development: The PMI Guide Project Management Institute (PMI)

    Framework essencial para alinhar a autonomia do Citizen Developer com a governança organizacional de forma segura.

  • Digital Fluency Volker Lang

    Uma exploração sobre como a fluência tecnológica se tornou a principal competência competitiva do mercado atual.

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