A abordagem ágil não é ágil, as pessoas são!
Por João Oliveira • Leitura de 6 min • Dezembro 2025
Para quem trabalha com tecnologia, e também em diversos outros setores, nunca se escutou tanto sobre a "abordagem ágil". Fala-se incansavelmente sobre otimização de desenvolvimento, redução de desperdício, adaptabilidade e a tão sonhada autonomia.
O objetivo declarado é abandonar a estrutura de comando e controle, uma herança da área militar em prática desde a 2ª Revolução Industrial, em favor de um ambiente de colaboração. Dentre estas abordagens, o Scrum se destacou (temos outras, claro, mas o foco aqui não é o método, e sim as pessoas, combinado?).
Todas essas são excelentes ferramentas para ambientes de incerteza. Porém, lanço um questionamento provocativo: essas técnicas são, por si só, ágeis?
O Óbvio que Ignoramos
A resposta parece óbvia: a agilidade só existe se as pessoas a praticarem de fato. Mas se isso é tão claro, por que ainda observamos tantas dificuldades na implantação da cultura ágil?
O ser humano é complexo. Trazemos referências de toda uma vida — família, escola, leis — que formaram nossa visão de mundo. Essa visão pode ou não ter sinergia com mudanças e desafios. Portanto, a palavra de ordem para qualquer liderança transformadora é: Paciência!
O Tempo da Mudança vs. O Tempo do Mercado
Nenhuma transformação acontece em um ciclo curto. É preciso tempo tanto para capacitar tecnicamente as pessoas no método quanto para a adoção da nova mentalidade. A maioria dos insucessos na transformação organizacional ocorre pelo tamanho inadequado do ciclo de mudança, não oferecendo tempo hábil para o time se adaptar.
É importante lembrar que a maioria de nós chegou ao mercado de trabalho com a lógica do comando e controle enraizada. É natural observarmos resistência (ainda que inconsciente) à autonomia e responsabilidade. Inclusive, precisamos acolher o fato de que talvez nem todos queiram essa autonomia. Identificar esses perfis e prever um plano de ação para acomodá-los é um ato de gestão humanizada.
A Pressão do "Time to Market"
Existe um fator de pressão real: o time to market. Ele acelera a mudança e pode ser a diferença entre a empresa sobreviver ou fechar as portas. Não podemos ignorar essa realidade.
No entanto, falhas de estratégia executiva não podem ser transferidas para o time como pressão desmedida. Elas devem ser assimiladas e conduzidas pela alta gestão com foco na necessidade real da mudança ("Por que estamos mudando?"). A estratégia inteligente prioriza áreas que geram receita e garantem a continuidade, expandindo a cultura para as demais áreas organicamente.
Conclusão: Ser Ágil é Ser Humano
Há um bordão no mercado que diz: "A cultura come a estratégia no café da manhã". Nada é mais representativo dessa frase do que a dificuldade de implantar mudanças disruptivas sem respeitar o tempo das pessoas.
As ferramentas, métodos e abordagens ágeis têm suas regras e entregam valor, mas o que todas têm em comum é um único ponto: Pessoas executam a abordagem ágil!
Enquanto não olharmos para os colaboradores como seres humanos complexos, continuaremos observando ruídos e decepções. A cultura só se desenvolve com respeito às diferenças e ao tempo de assimilação de cada um. Agilidade é sobre comportamento, inclusão e reação a imprevistos. O método é apenas o meio; ser ágil é ser humano.
Nota do Autor: Escrevi este artigo originalmente em OUT/2020. Decidi publicá-lo novamente no Proicere Drops pois ele segue atual: as dificuldades organizacionais de implantar agilidade e ter resultados positivos continuam sendo, fundamentalmente, humanas.
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